sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

OS OITO ODIADOS (2015)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Hateful Eight
Realização: Quentin Tarantino
Principais Actores: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Tim Roth, Michael Madsen, Demián Bichir, Bruce Dern, James Parks, Channing Tatum
 
Crítica:

No one said this job was supposed to be easy. 

A BOA CONVERSA

Nobody said it's supposed to be that hard, neither!

É um western. Toda a plateia aguarda por tiros, sangue e mortes. Ainda para mais, bem que temos presente aquele 
desenfreado e barulhento final de Django Libertado. Que a acção comece! Mas... é um western by Quentin Tarantino. Nunca mais acção e menos conversa. Antes a palavra, muitas palavras, a boa conversa fiada - essa quase interminável verborreia de estilo que demora e atrasa a acção, que nos habituámos, paciente e prazerosamente, a saborear - e a adorar. A acção faz-se, então e sobretudo, podemos dizer, pelas palavras - as palavras como armas. Ao seu oitavo filme, Tarantino - o argumentista - não se repete, antes se matura, apurando a construção dos seus diálogos - dos seus monumentais diálogos - e a forma como, através deles, estuda as personagens e as personagens mascaram ou revelam as suas verdadeiras identidades, egos e intenções. A arrojada trama deste magistral Os Oito Odiados, eu diria, é como um ensopado quentinho, servido com todo o gosto - a cada colherada, cena ou capítulo, degustamos cada pormenor intensamente. E como em qualquer boa refeição, há que saboreá-la sem pressas, lentamente. O nevão não cessa e o inverno é rigoroso. Os oito ali se encontram, na retrosaria da Minnie, e não poderão ir a mais lado nenhum. Ninguém é quem diz ser ou, pelo menos, é o que nos aparenta. Ninguém confia em ninguém. Todos estão armados. E... temos tempo - 167 minutos de puro cinema. Céus, em gloriosos 70mm Ultra Pannavision! Sentem-se confortavelmente e disfrutem da refeição. Não tardarão os tiros, o sangue e as mortes. Ou melhor, talvez demorem um pouco, mas vai valer a pena. Pelo sim pelo não, aqueçam também um café. Café? Hum, melhor, esqueçam lá o café. Concentrem-se na comida - que é como quem diz, no filme. Bom filme!

Todos são, de uma forma ou de outra, caçadores de recompensas, carrascos, prisioneiros, xerifes e foras-da-lei. Uns procuram dinheiro, outros liberdade, outros justiça... todos procuram escapar com vida àquele encontro do diabo, àquela ameaçadora partida do destino - ou de outro autor por assumir - que tão friamente se proporciona e se descortina. Sobre o que falam eles? O que teriam oito estranhos para tanto conversar? Bem, alguns talvez não sejam tão estranhos assim, talvez se conheçam de outras paragens, talvez conheçam pessoas próximas, talvez... o mistério crescente acalora-nos o estômago, mas adensa-se nos interiores da estalagem como a tempestade lá fora, sempre omnipresente. Às tantas, o inevitável e sangrento confronto é-nos servido - como a vingança, é um prato que se serve frio. Pelo meio inflamam-se as feridas e memórias da guerra civil (Bruce Dern é o velho e solitário confederado), o racismo e tanto o racismo (sobretudo para com os negros - sempre brilhante Samuel L. Jackson, dotado de um humor assaz corrosivo - e para com os mexicanos - papel que caiu que nem uma luva a Demián Bichir) e o resto é conversa de cowboys e bandidos, que se degladiam pela língua num torneio de esperteza. No final, Tarantino fará a sua justiça: sobreviverão os mais autênticos. Até lá, por mais que eles falem, nunca saberemos em quem confiar. Saberemos coisas sobre eles, verdades e mentiras, todas mais ou menos questionáveis, moralmente falando, mas até ao twist e ao desfecho nada mais conheceremos tão bem como a paranóia em que fomos lançados.

Desempenhos do mais alto nível num elenco de nomes e talentos sonantes, que o argumento tão criativamente potencia: Kurt Russell, Walton Goggins e a prata da casa - Tim Roth, a fazer de Christoph Waltz, e Michael Madsen. Destaque especial - por ser a única mulher entre o bando de homens e por nos oferecer uma performance totalmente fora-de-série - para Jennifer Jason Leigh. A sua Daisy Domergue é uma admirável e apaixonante mais-valia - pelo aspeto físico (nojento e repulsivo), pela graça (grotesca e inusitada) e pelo seu charme (doentio e inegável). O já habitual e irresistível cameo de Tarantino resume-se, desta vez e face ao reduzido cast, à voz, à breve narração na abertura do capítulo quatro e pouco mais adiante.

O prolífico e lendário Ennio Morricone, compositor dos emblemáticos westerns de Leone que Tarantino tanto idolatra como O Bom, O Mau e o Vilão e Aconteceu no Oeste (e de muitos dos mais emblemáticos filmes da História do Cinema tais como As Mil e Uma Noites de Pasolini, 1900 de Bertolucci, Dias do Paraíso de Malick, Os Intocáveis de De Palma ou Cinema Paraíso de Tornatore) assina a composição musical d'Os Oito Odiados, como o mesmo carisma imortal das suas obras de outrora. A Última Diligência para Red Rock é, em tudo, um tema absolutamente distinto e memorável. E na arte de Tarantino, esse nerd da pop culture, há sempre espaço para canções não originais, coladas com especial sentido de ocasião. Nunca Silent Night, por exemplo, tocada ao piano de forma tão amadora e persistente pelo barbudo mexicano, teve tamanho impacto na preparação das emoções, numa cena. A música, que se sobrepõe ao vento e à queda de neve - e até, se necessário, àquela maldita e inesquecível, estrondosa e tão pregada porta - cria tensão, aumenta o suspense e prende-nos aos acontecimentos. Dá gozo ao tempo.

O igualmente lendário Robert Richardson (d'O Aviador ou A Invenção de Hugo do não menos lendário Scorsese) alinha no devaneio nostálgico e desafiante de Tarantino e recupera as lentes das câmeras Ultra Pannavision de 70mm, que conheceram os seus tempos áureos - embora curtos - no final dos anos 50 e na década de 60. Saudemos, a propósito e de caminho, o ilustre e bem-aventurado Ben-Hur (1959), de William Wyler. Pois bem, desde essa época até ao seu ano de lançamento, Os Oito Odiados foi o único filme filmado e exibido no formato. No ano seguinte seguir-se-ia a continuação da saga Star Wars, no seu capítulo VII. E o mérito do revivalismo é todo deste filme, ainda que, na grande parte do seu tempo, não nos maravilhe com as amplas paisagens a céu aberto, antes com os ínfimos detalhes de interiores ou de planos mais aproximados. Os Oito Odiados é, pois, na relativa escala das coisas que nos é proposta, um surpreendente banquete, quando a narrativa ou os cenários, à partida, não pediriam tanta informação por frame. O resultado é deveras espetacular e enriquecedor, sobretudo num grande ecrã. Os nossos olhos sondam cada imagem, na busca incessante de uma pista que ajude a decifrar a trama. Neste sentido, o seu contributo para o efeito da narrativa no espectador é determinante. Para além de, naturalmente, valorizar o trabalho da direcção artística.

A violência gráfica tarda, mas não falta ao compromisso. Rasga, a dado ponto e plena de irreverência, quaisquer formalismos. Afinal, quantos realizadores conhecemos tão zelosos do seu estilo e tão fiéis a si próprios como Tarantino? Mais do que um realizador e realizador-argumentista (o que é decisivo), Tarantino é um autor, um artista. Nós que, tal como ele, alimentamos e vivemos do culto, nem precisamos de assistir a um trailer para querer ver um dos seus filmes. Basta um nome, o seu nome. Tarantino é sinónimo de arte, de excelência, de lenda viva. Tal como Leone, Morricone, Richardson ou Scorsese, ele pertence ao panteão. Os Oito Odiados é, por tudo isto, um proveitoso pedaço de cinema, um western singular e um dos seus melhores filmes. Não admira que o filme termine e apeteça repetir a dose.

Pensar que Tarantino chegou a desistir de concretizá-lo, quando viu o argumento exposto, inadvertidamente, na internet. Estamos perante um clássico instantâneo, senhores! Absolutamente magistral.

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CINEROAD ©2017 de Roberto Simões