quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O RENASCIDO (2015)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: The Revenant
Realização: Alejandro Gonzalez Iñárritu
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Arthur RedCloud, Duane Howard, Melaw Nakehk'o, Grace Dove, Paul Anderson, Kristoffer Joner, Joshua Burge, Fabrice Adde, Christopher Rosamond, Robert Moloney, Lukas Haas

Crítica:

A ÉPICA SOBREVIVÊNCIA
OU A VINGANÇA DE UM ESPÍRITO SELVAGEM


 Nous sommes tous sauvages.

Por mais filmes e anos que passem, o cinema procurará sempre identificar-se com o espectador e fazê-lo sentir emoções, despertando pensamentos e possibilitando experiências. Esta é a sua verdadeira essência e a da arte e do cinema enquanto expressão artística. A partilha faz-se entre o artista e o receptor por meio do objecto artístico, fílmico neste caso. E se falamos de arte e do seu entendimento, compreenderemos toda uma dimensão sensorial - invisível, impalpável - que é alimento do espírito, que o estremece e o mantém vivo; o que não raras vezes esquecemos na nossa existência mundana. A discussão do que é ou não arte jamais estancaria, no entanto parece-me peremptório defini-la como tal: algo que alimenta o espírito. Como identificar, então, que estamos perante um objecto artístico? Quando a respiração de um personagem se confunde com a cadência da acção, percebemos que um filme está impregnado de alma. Quando as imagens que vemos, representadas, nos fazem contrair os músculos e sentir, tão fisicamente, a sua angústia e dor, sabemo-lo brutal. Quando a sua música transborda, nos penetra por todos os poros da pele e nos ressoa no íntimo, dizemo-lo visceral. E quando a beleza da natureza captada nos diminui e nos reposiciona perante a pureza original, realmente importante, rendemo-nos à transcendência. No seu diálogo com o espectador, O Renascido revela-se um filme impregnado de alma, absolutamente brutal, visceral e transcendente. Um imersivo e poético pedaço de arte, que tão profundamente nos devasta como excelsamente nos purifica. Em primeira ou última instância, a verdade de cada um não nunca será a verdade de todos e a experiência de assistir a um filme será sempre algo inevitavelmente pessoal e subjectivo. Não obstante, considero uma loucura e um absurdo ignorar um filme como este. Cessarei a avaliação emocional, mais abstracta e passional - mas nunca menos importante - e dissertarei abaixo sobre a interpretação, as influências e os tantos méritos do filme.

Confluem, claramente, as influências, assumidas, de Malick e Tarkovsky. De Malick a contemplação e a divinização da natureza, por meio da assombrosa e genial fotografia de Emmanuel Lubezki, comum em Malick e a Iñárritu. Notem-se as reminiscências d'O Novo Mundo ou d'A Árvore da Vida, a título de exemplo, no esplendor dos elementos naturais captados, sempre a luz natural, na singularidade dos enquadramentos. Lá está o sol malickiano, raiado no seu affair com a câmera, as árvores e as folhas e as nuvens e o céu. A natureza comunica também pela sinfonia de sons: o vento que sopra, a água que escorre, o fogo que arde e as fagulhas que ascendem na noite, os animais que cantam no seu coro diversificado. Está lá o voiceover sussurrante, a dimensão interior e onírica e a imagética surrealista, que Malick tão bem explorou numa linguagem própria e, pelos vistos, canónica. Assim flui uma meditação sobre o bem e o mal, a extracção dos recursos e o carácter, sempre soberano, da criação. Contudo, enquanto em Malick a natureza é digna de adoração e redenção, sinónimo de pureza e júbilo, em O Renascido é digna de respeito e reverência, pois tem o poder de criar mas simultaneamente o poder de destruir. A água pode dar de beber e murmurar de encontro à vida, como no plano de abertura, como pode ferir e ferozmente gritar, como a dada cena em que Hugh Glass se vê levado pelas quedas-de-água, fustigado pela força da corrente, podendo ou não levá-lo à morte. Em Iñárritu, portanto, a natureza é tanto uma dádiva abençoada como um obstáculo severo, uma entidade que tanto dá como tira, num permanente duelo de forças antagónicas que decidirão a sobrevivência do protagonista. Iñárritu serve-se do lirismo de Malick e mergulha-o na crueza do realismo, um realismo obsessivo e assumido por uma câmera, qual deus, omnipresente e omnipotente. Há planos demorados, sem cortes, em que somos completamente transportados para o cerne da acção ou para o coração das trevas. A respiração embacia as lentes, que também se molham de água ou salpicam de sangue, E há tomadas de 360º, então, que nos tiram o fôlego e que nos alheiam totalmente da experiência de assistir ao filme. Não há tela ou ecrã, personagens e espectadores partilham o mesmo espaço, tal é o nível de imersão. Nós estamos lá, naquele ambiente inóspito, gelado e rigoroso, regidos por instintos primitivos de predador e presa - ou comemos ou somos comidos. Nesse aspecto, John Fitzgerald (brilhante interpretação de Tom Hardy) tinha toda a razão: se, perdidos na natureza, estivermos esfomeados e virmos um esquilo, encontrámos deus, encontrámos a religião - ele será a nossa salvação.

Também o eco de Tarkovsky se esbate e perpetua n'O Renascido, em alguma da sua imagética simbólica e mística e em alguns dos seus planos. São declarados piscares-de-olhos: o pássaro que se solta das vestes e peito da indígena mulher de Glass, em sinal de libertação e ascensão do espírito, como os pássaros que voam da imagem da Nossa Senhora em Nostalgia, a velha índia de farnel ao colo entre os destroços da tribo como o velho de galo ao colo entre as ruínas da guerra de A Infância de Ivan, a igreja a céu aberto e os frescos como os de Andrei Rubliov ou a levitação da mulher como em O Espelho. São puras homenagens e dedicatórias, de mestre para mestre - até para imitar é preciso arte - a arte é imitação - e quem imita melhor é artista maior. A imitação e a superação são a grande e inevitável angústia da influência, já o dizia Harold Bloom, na obra com o mesmo nome. Só quem as ousa poderá elevar-se, procurando encontrar, no caminho, um lugar próprio e único.

Inárritu não estagna. De Babel a Birdman e agora a'O Renascido, a sua obra reinventa-se, aprimora-se, arrisca e flui por novos afluentes, novas direcções. Agora chega ao western, reformulando-o. Quase nos esquecemos que é um western, na verdade, pela abordagem, mas é: pela época, pelo espaço, pelo contexto - aqui temos, uma vez mais, o homem branco versus índios, na desmedida sede de fortuna. Dá-se o confronto entre a pólvora e as flechas, entre duas formas tão diferentes ver o mundo e de se relacionar com ele. Quem são os maus? Os tropas que dizimam aldeias inteiras, a mando de superiores políticos? Os caçadores de peles que disparam contra os cavalgantes peles-vermelhas em defesa das suas cargas e vidas? Os índios Pawnee que vêem as suas terras invadidas, a sua fauna assolada? Os índios Arikara, prontos a arrancar um escalpe, a quem familiares foram mortos e sequestrados? Os franceses, que mantêm a cativa a nativa Powaqa, para seu bel-proveito? A ursa (esse incrível e monstruoso feito digital, pleno de realismo), que, protegendo as suas crias, tão violentamente ataca Glass, desferindo-lhe golpe atrás de golpe, ferida atrás de ferida, rasgando-lhe a carne, quebrando-lhe o osso e sangrando-lhe a alma? Fitzgerald, esse canalha amoral e desprezível, racista e ignorante, capaz de matar ou enterrar alguém vivo em nome do dinheiro e para salvar a sua pele antes que o inverno o martirize? Glass, quase morto, que empreende uma épica luta pela sobrevivência em nome da vingança do filho assassinado por Fitzgerald? Se todos eles forem os maus, quem são os bons? A aposta falhará claramente se se avançar com inclinações maniqueístas. Todas as personagens, individuais ou colectivas, têm as suas motivações e, perante as duras circunstâncias, todas são humanas - com toda a ambiguidade que isso significa. Todas, de alguma forma, sobrevivem umas às outras e todas sobrevivem às extremas condições da paisagem. Daí a importância da respiração neste filme. As long as you can still grab a breath, you fight. E enquanto cada um lutar, viverá. You breathe... keep breathing. Acredito seriamente que Glass teria morrido se não lhe tivessem morto o filho. A vingança será a faísca que lhe reacenderá a vida, alimentando-lhe o espírito e conferindo-lhe uma força inesperada. Quando Glass se recolhe nu e na posição fetal no ventre do cavalo, procurando abrigo, e de lá desperta, percebemos o símbolo. Glass renasceu do impossível para, enfrentando todas as contrariedades, fazer o possível. Pela memória do filho. Isto é profundamente comovedor... O seu caminho é uma viagem espiritual, acompanhando-o a natureza enquanto entidade transfiguradora. Mas também de aprendizagem e sabedoria - e aí a personagem de Hikuc (Arthur RedCloud), nativo xamã que às tantas encontra entre a carcaça de um bisonte, tem um papel determinante. Também ele um solitário a quem a família foi assassinada, é ele que às tantas profere a frase do filme: a vingança está nas mãos do criador. O grande ensinamento ecoará no final da obra, quando Glass se vir a braços, machado e faca com o grande vilão - a cena será, toda ela, de uma encenação implacável - manchando de vermelho e ódio a brancura da neve pura, numa sangrenta porradaria que lhe exige o ritual selvagem, necessário para a catarse.

Vamos falar de Leonardo DiCaprio? Poucos actores terão o privilégio de construir uma carreira assente em personagens tão marcantes, filme após filme, como DiCaprio, é certo. Não vale a pena destacar papéis, todos são dignos de nota e todos são um sucesso, absolutamente extraordinários, assim como os filmes e os realizadores que os permitiram, desde Gangues de Nova Iorque. Um bom e influente agente? Indiscutivelmente. Mas sejamos francos: que talento, que carisma. Em O Renascido, DiCaprio tem o seu papel com menos falas, mas com a sua interpretação mais física, mais intensa e mais profunda. Nos seus olhos e expressões espelha-se um sofrimento inimaginável - e esse sofrimento, por mais imersos que estejamos no filme e nunca por desmérito do actor, é impossível de o sentirmos na sua plenitude; a não ser, acredito, que já tenhamos passado por uma situação equiparável.

Iñárritu sabe como potenciar uma obra-prima. Sabe que o todo é a soma das partes e que, se todas as partes brilharem, o todo será mais reluzente. A equipa de produção dividiu-se entre o Canadá e a Argentina, ao sabor das condições atmosféricas, nem sempre favoráveis. Os técnicos e artistas passaram por dificuldades que jamais sentiriam na comodidade de um estúdio ou em frente a um computador, desenvolvendo paisagens e horizontes artificiais a perder de vista. Ganhou-se em verdade, e essa verdade respira-se a cada frame. Hollywood também caminha na verdade. Do design de produção de Jack Fisk à restante direcção artística, do guarda-roupa de Jacqueline West à excelente caracterização, todos se superam ao mais alto nível. As desoladoras, arrepiantes e fantasmagóricas composições musicais de Carsten Nicolai e Ryuichi Sakamoto, que tão bem acompanham a demanda de Glass, emocionam-nos no flagelo, assim como uma calorosa fogueira numa noite de inverno. O elenco tem, deste modo, todo a dedicação e primor envolventes para sublimar o projecto, entregando-se a prestações ímpares: ainda Domhnall Gleeson, Will Poulter e Duane Howard. Somando as partes, Iñárritu supera-se em inspiração, maravilhando-nos, arrebatando-nos. Se o mundo alguma vez acabar assim que terminar de assistir a'O Renascido, morrerei pleno. É por filmes destes que o cinema vale a pena. Trata-se, seguramente, de uma das mais incontornáveis obras-primas deste início de século.

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CINEROAD ©2017 de Roberto Simões