quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O ABRAÇO DA SERPENTE (2015)

 PONTUAÇÃO: EXCELENTE
Título Original: El Abrazo de la Serpiente
Realização: Ciro Guerra

Principais Actores: Nilbio Torres, Jan Bijvoet, Antonio Bolivar, Brionne Davis, Yauenkü Migue, Nicolás Cancino, Luigi Sciamanna 

Crítica: 

NO CORAÇÃO DA AMAZÓNIA

Abandona tudo e imerge, sozinho, pela selva adentro, guiado apenas pelos seus sonhos.

Há filmes com espíritos lá dentro. Espíritos vivos, que nos chamam, possuem e que, sem pedir autorização, nos ficam cá dentro - dias, anos, num tempo sem tempo. Em nós se alimentam, crescem e criam raízes. Estabelecem, interiormente, um inesgotável diálogo de consciências, memórias e efabulações. Quando damos conta, são parte de nós, confundem-se connosco. Eu nunca estive realmente na Amazónia, pulmão do mundo. No entanto, como posso explicar a absurda mas igualmente real sensação de já lá ter estado, por meio da experiência - absolutamente transcendente - que O Abraço da Serpente tão inesperadamente me proporcionou, enquanto espectador? Nós não vemos o filme, nós vivemo-lo. Entramos nele e ele entra em nós. Sentimos os cheiros e as temperaturas... tocamos as árvores e as folhas... sentimos o medo... o vazio e a plenitude. Estamos, pois - em primeira ou derradeira instância - perante uma aventura espiritual profundamente contemplativa, meditativa, apaziguadora e totalizante. A arte enquanto experiência mística. Um imaculado e singular pedaço de cinema.

O Abraço da Serpente marca a primeira vez em trinta anos que, nos meandros da ficção, uma câmera desbravou a selva colombiana. Ciro Guerra assumiu ser intransponível para a tela aquele verde único, intenso, tão denso. Curiosamente ou talvez por isso, a opção estética de filmar todo o filme num cristalino e prateado preto e branco possa, à partida, surpreender. Mas aquilo que a fotografia de David Gallego faz pelo filme é milagroso. Nela está o espírito da Amazónia - nós sentimo-lo. As imagens são de um esplendor visual inebriante e hipnotizante, reclamando uma autenticidade voraz. É
 como se, por vezes, chegássemos mesmo a vislumbrar o verde. A imersão proporciona-se, ex aequo, graças à extraordinária profusão e riqueza dos efeitos sonoros utilizados: pássaros, insectos, ventos e toda aquela biodiversidade - nós estamos lá. Outras obras assinaláveis procuraram captar, ao longo dos anos, a essência da selva. Recordo, a título de exemplo, Aguirre, O Aventureiro ou Fitzcarraldo de Herzog, A Missão de Joffé, O Novo Mundo de Malick ou Apocalypto de Gibson. Todas elas o conseguiram, de forma exímia, mas nenhuma com a verdade e escapando a tantos clichés como O Abraço da Serpente, arriscaria dizer. Quando muito não seja por recusar a cor. Até a banda sonora de Nascuy Linares é sempre tão orgânica.

A história conta-se a dois tempos. A uni-los, o mesmo lugar, o mesmo rio - a serpente, que abraça a selva e leva a vida a todas as paragens. O mesmo homem - Karamakate, um xamã indígena, o último sobrevivente da sua tribo, que, com quarenta anos de diferença e algures 
nos primórdios do século XX, guia dois cientistas e exploradores europeus na mesma busca - a busca da yakruna, uma planta rara, lendária e sagrada, de elevados poderes curativos. Às tantas e intencionalmente, parece que toda a acção decorre no mesmo tempo. Como se a Amazónia não tivesse tempo. Baseada nos relatos escritos de Theodor Koch-Grunberg e Richard Evans Schultes, a viagem ganha, entre tantos, interesse antropológico, sociológico e etnográfico - não é propriamente sobre o choque civilizacional, mas sobre as diferenças culturais, religiosas e os diferentes entendimentos do mundo, da natureza e da vida entre os indígenas autócnes e os orientais, cujo impacto devastador é alvo de crítica (a elevada exploração da borracha e dos recursos naturais, por exemplo) e sátira dissimulada, nunca pérfida (às nefastas missões religiosas, sobretudo). E a viagem faz-se num misto de emoções: por um lado, o prazer da descoberta, o deslumbramento, e, por outro, as tantas fobias inerentes - o medo da loucura e do isolamento nos confins da selva, o perigo dos animais ferozes e venenosos, a sombra do canibalismo, a brutalidade e violência dos inimigos e da catequização obscena, que impõe o evangelho e a sua verdade, dizimando tribos e tradições ancestrais. Eis, pois, a Amazónia como expressão máxima do paraíso e, simultaneamente, do inferno.

Quando menos esperamos, os símbolos e as metáforas ganham uma importância crescente, assumindo a narrativa e abraçando uma dimensão metafísica. Karamakate aceita guiar os brancos porque é essa a sua missão épica e derradeira, a de transmitir o seu saber, de partilhar a yakruna e os seus segredos. 
O conhecimento pertence a todosSem descendência e sem futuro, com quem mais poderia partilhar? É quando Theo morre (a visão do jaguar, que morde a serpente), doente e, aos olhos do índio, desrespeitoso para com a Mãe Natureza, que a sua missão é abruptamente interrompida e se torna um chullachaqui - um corpo vazio e sem alma, como uma fotografia, como um fantasma, suspenso no tempo e espaço. Limita-se a envelhecer e a sonhar. Os sonhos ainda recordam o lugar da yakruna, mas o seu ser acordado somente existe, somente paira. Ecoa Weerasethakul. Quando Evan aparece, décadas mais tarde, retomando a demanda do seu antecessor, Karamakate como que desperta e, pelo mistério, sente-se impulsionado a acompanhá-lo, para concluir finalmente a sua missão. A serpente segue o seu curso, a seu ritmo.

Karamakate é, provavelmente, das personagens mais puras que poderemos encontrar na história do cinema ficcional. Talvez por ser - não direi interpretado, direi - personificado por dois não-actores, Nilbio Torres (enquanto jovem) e Antonio Bolivar (enquanto velho), é de uma simplicidade e genuinidade desarmantes. É ele a alma do filme e a alma da Amazónia. Representa todos e cada um dos indígenas seus antepassados e contemporâneos. Respira verdade. E isto é um feito notável. Desconfia de tudo o que é do homem branco, vê inutilidade em cada livro, bússola ou fé cristã. Aliás, para ele como para qualquer índio, tudo é passível de troca à excepção do colar, intimamente ligado à alma. Talvez a única coisa que chega a admirar seja mesmo a música. A dado momento, Evan gira o disco de Haydn e ouve-se A Criação. Karamakate diz-lhe: nesta tua música está o caminho, escuta-a. É um sonho, deves guiar-te por ele. E de sonhos percebe Karamakate. O próprio filme é como um sonho, do qual não queremos acordar, c
omo se estivéssemos drogados e alucinados pelo fumo de um caapi. Um sonho ao qual voltaremos mais vezes, pois responderemos ao seu chamamento. Quando se finda e concretiza a missão, Karamakate deixa-lhe a sua canção, o colar e a alma. Evan regressa envolto em borboletas, renascido. Cumprem-se o simbolismo, a crença e o ritual. Cumpre-se a natureza das coisas.

Ciro Guerra mostra-se inspiradíssimo na captação das expressões de Torres e de Bolivar como prima, aliás, na realização e na finalização de toda a obra. O tempo encarregar-se-á de atribuir a'O Abraço da Serpente, estou certo, todo o valor e reconhecimento que tem e merece. É, seguramente, um dos mais deslumbrantes e fascinantes filmes deste início de século. A natureza não dorme. Prestemos atenção. Estamos perante arte em estado puro.


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